Arquivo/Coleção: Álbum de Canudos - fotografia Flávio de Barros
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400 conselheiristas prisioneiros
"A 2 de outubro, um dia após o assalto final do arraial, soldados do 4º Batalhão avistaram ainda pela manhã uma bandeira branca: tratava-se de solicitação de trégua vinda de Antônio Beatinho, zelador das imagens de Canudos. Beatinho foi levado à presença do general Artur Oscar - a quem chamava de 'doutor-general' - para negociar a rendição dos sobreviventes, solicitando-lhe garantia de vida. O comandante da Quarta Expedição consentiu na solicitação, impondo, no entanto, o seu caráter incondicional. Beatinho voltou para avisar aos sitiados. Até as 17h daquele mesmo dia, um elevado contingente já havia se apresentado. Segundo Favila Nunes, da Gazeta de Notícias, foram cerca de sessenta homens e mais de quinhentas mulheres e crianças, que ficaram sob o cerco do Batalhão de Polícia do Pará. O lado dramático da cena foi descrito pelos diversos correspondentes presentes. Favila Nunes, impressionada, assim o relatou: 'Mas, que horror!... esqueletos humanos, com as mãos decepadas, ferimentos horríveis e asquerosos, alguns apodrecidos.' A fotografia destes prisioneiros é, certamente, uma das mais conhecidas imagens do conjunto, intitulada por Flávio de Barros '400 Jagunços Prisioneiros'. Revela o dramático estado dos sitiados, muitos sem água e comida havia vários dias. A maioria dos prisioneiros na fotografia é constituída por mulheres, algumas amamentando seus filhos, crianças e homens em menor quantidade (ao fundo). Euclides da Cunha também nos revela aspectos da rendição e prisão dos conselheiristas: 'Nem um rosto viril, nem um braço capaz de suspender uma arma, nem um peito resfolegante de campeador domado: mulheres, sem número de mulheres, velhas espectrais, moças envelhecidas, velhas e moças indistintas na mesma fealdade, escaveiradas e sujas, filhos escanchados nos quadris desnalgados, filhos encarapitados às costas, filhos suspensos aos peitos murchos , filhos arrastados pelos braços, passando; crianças, sem número de crianças; velhos, sem número de velhos; raros homens, enfermos opilados, faces túmidas e mortas, de cera, bustos dobrados, andar cambaleante.' Beatinho e muitos destes prisioneiros, contrariando a promessa do alto comando da Quarta Expedição, ainda seriam mortos antes do final dos combates, situação revelada por correspondentes presentes a Canudos e denunciada por Euclides da Cunha: 'E de que modo comentaríamos, com a só fragilidade da palavra humana, o fato singular de não aparecerem mais, desde a manhã de 3, os prisioneiros válidos colhido na véspera, e entre eles aquele Antônio Beatinho, que se nos entregara, confiante - e a quem devemos preciosos esclarecimentos sobre esta fase obscura da nossa história?'." 00000tmp
Flávio de Barros
Canudos
1897